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O triângulo de Sines

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O triângulo de Sines

Mensagem por Admin em Ter Jan 31, 2017 11:14 pm

Junto da fachada norte da Igreja Matriz de São Salvador, em Sines, um homem incomum é sepultado. Provavelmente proveniente de África,não é tratado liturgicamente como um escravo. Junto do corpo, esconde-se uma pequena fortuna.

Na costa atlântica portuguesa, Sines parece figurar no vértice de um triângulo ainda mal conhecido do comércio de escravos com África e a América Central.

“Não dissemos nada entre nós, apenas sorrimos”, conta a arqueóloga Paula Alves Pereira, responsável pela escavação arqueológica, quando recorda um dia especial da Primavera de 2013. “Percebemos que era invulgar, que não havia nada igual em Sines, mas guardámos estes pensamentos para nós.”

Só mais tarde, quando a noite expulsou os arqueólogos do sítio de escavação em pleno coração da cidade de Sines, Paula Pereira e a bioantropóloga Sónia Ferro estudaram melhor os achados do dia. Por feliz conveniência, o espólio do trabalho arqueológico era guardado a dez passos do local de escavação, na nave de uma igreja desactivada, hoje cenário de ensaios musicais. Foi aí que voltaram a olhar para os pedaços de maxilar recuperados pela equipa. Inequivocamente, os dentes incisivos superiores estavam limados. Num recipiente, guardavam a outra peça inexplicável: 25 moedas de prata recolhidas junto do esqueleto deste homem. A partir desse dia, a equipa passou a designar o indivíduo da sepultura número 11 como O Africano…

“Percebemos que era invulgar, que não havia nada igual em Sines, mas guardámos estes pensamentos para nós.”

Em muitos aspectos, uma escavação arqueológica de emergência num contexto urbano é como um mergulho no mar logo após uma maré viva. Tudo fica invulgarmente límpido e, varridas para longe as camadas de sedimentos, o campo de visão torna-se mais claro do que nunca. Como todos os privilégios, porém, este dura pouco – em breve, a escavação encerra e o portal de acesso ao passado fica novamente tapado pelas ondas de cimento, tijolo e laje.

Em Março de 2013, uma intervenção da EDP num troço do Largo Poeta Bocage, junto da fachada norte da Igreja Matriz de São Salvador, em Sines, produziu um resultado inesperado: as máquinas que rasgavam o solo para instalar uma nova conduta fizeram emergir vestígios ósseos humanos. Inadvertidamente, a companhia de electricidade tinha feito luz sobre uma necrópole contígua à fachada norte da igreja, onde ficara em tempos uma das portas travessas do templo (a outra ficaria junto da fachada sul). O livro de óbitos da cidade comprova a sua utilização até ao início do século XVII.

Uma das sepulturas encontradas na necrópole: uma mulher, propositadamente desfigurada após a morte, talvez por superstição. Fotografia Paula Alves Pereira.

Em 58 metros quadrados, numa artéria vital da cidade percorrida por milhares de turistas todos os anos, ponto de comunicação entre o Largo das Igrejas e a porta principal do castelo, os achados sucederam-se. No primeiro dia, a equipa identificou de imediato oito enterramentos. Alguns tinham sido danificados pela retroescavadora, quase todos mostravam-se praticamente despojados de qualquer artefacto significativo, embora dois guardassem na mão a tradicional moeda retida no corpo para pagar ao barqueiro a viagem para o Além. “Diariamente, íamos descobrindo mais e terminámos com a certeza de 39 enterramentos e um número de indivíduos calculado em 53”, explica Sónia Ferro. Os materiais recuperados englobavam um vasto período da história humana, recuando até ao período romano, certamente por revolvimento do solo antes da escavação. Havia dúvidas sobre o período de uso mais intensivo daquela área de enterramento. Até ao dia em que se descobriu O Africano.

Uma necrópole ou cemitério é, no período medieval, um espaço regido por normas sociais. Os sepultamentos respeitam a estratificação da sociedade e as posses de cada defunto, reservando para os mais privilegiados os locais perto do adro da igreja (ou em casos raros o solo da própria igreja). Nem todos os sepultamentos obedecem aos ritos cristãos e à orientação leste-oeste dos corpos. Muitos indivíduos são simplesmente depositados sem orientação.

“O Africano foi colocado num dos melhores locais possíveis, é uma marca inequívoca de estatuto, própria de quem pode pagar cova e sacramentos”, explica Paula Pereira.

“Foi sepultado com os preceitos e orientação cristãos, não como um escravo”, continua. “E a posse de 25 moedas de prata cosidas junto do corpo, num local que certamente passou despercebido a quem o sepultou, sugere fortemente que ele era proprietário de uma pequena fortuna.” Mas quem seria esta excepção entre a população africana transferida para a Europa e América do Sul pelo bárbaro comércio de escravos potenciado pela expansão marítima?

Um dado adicional foi fornecido pela identificação das moedas recolhidas, embora todas elas carecessem de limpeza e tratamento químico, entretanto realizados no Centro de Arqueologia Caetano de Mello Beirão, em Ourique. A moeda mais antiga deste espólio data de 1505 (reinado de Dom Manuel I) e a mais recente é de 1590 (reinado de Dom Filipe I). Outro acontecimento temporal baliza ainda o tempo de vida de O Africano: o livro de óbitos de Sines começa em 1605 e não lhe faz qualquer referência. “Temos portanto um intervalo provável entre 1590 e 1605 para a morte deste indivíduo, mesmo tendo em conta o amplo tempo de circulação das moedas neste período.”

O espólio numismático de O Africano, já depois de limpo e consolidado pelo Centro de Arqueologia Caetano de Mello Beirão, em Ourique. Fotografia Cortesia do Centro de Arqueologia Caetano de Mello Beirão, Ourique.


Três das moedas cosidas junto ao corpo do homem da sepultura número 11 foram cunhadas na América Central, então maioritariamente controlada pela coroa espanhola. São raras em contexto europeu e a sua presença em Sines, um porto atlântico até aqui ainda não associado às rotas de escravos ou ao tráfego comercial com as Américas, tornam-nas dificilmente explicáveis. Sines foi o local de nascimento de Vasco da Gama, e a construção romântica do seu ideário de navegação foi, desde então, ligada à rota da Índia, mesmo sabendo que o mais conhecido filho da terra não voltou a aportar aqui após a descoberta do caminho marítimo do Índico.

“Este espólio revelou que, afinal, talvez se soubesse pouco sobre o papel de Sines na navegação do Atlântico Norte, sobretudo durante o período filipino (1580-1640)”, diz Paula Pereira. A etapa seguinte passava por Espanha, mesmo sem sair de Sines…

Imagem dos dentes incisivos limados. 

António Perez morreu em 1587 em Vera Cruz, na América Central. Foi navegador, como não poderia deixar de ser: mestre de uma barca chamada San Mateus, fez-se depois, em 1572, mestre da importante nau Trinidad. A morte colheu-o em casa, na cama, de enfermidade. No seu testamento, lido e descodificado por Rui Santos, técnico do Museu Municipal de Sines, faz amplas referências aos escravos que transaccionou e toma providências para transferir as suas posses em Vera Cruz e San Ulian para outros indivíduos. Manda rezar missas em Cádis e Sevilha pela sua alma, mas guarda sobretudo para a sua Sines natal doações à Misericórdia, ao hospital dos pobres, para além de encomendar missas para esta mesma Igreja Matriz de São Salvador, palco da actividade arqueológica de 2013.

O debate é delicado, na medida em que o comércio de escravos é um tópico sensível mesmo século e meio depois da sua abolição progressiva por parte dos principais países europeus e norte-americanos.

O Ministério Espanhol da Cultura, Educação e Desportos procedeu, na última década, a intensa digitalização de espólios do Arquivo Geral das Índias. Foi lá que Paula Pereira descobriu as invulgares páginas deste documento que certifica, para lá de dúvidas razoáveis, que, durante o período filipino, existiam navegadores de Sines envolvidos no comércio de escravos e com presença confirmada e destacada na administração colonial da América Central. A questão já não é tanto se Sines tinha relevância neste triângulo entre África, América Central e a costa atlântica portuguesa. A questão é se haverá muitos mais sinesienses como António Perez.

Esta salva banhada com folha de ouro, que integra a colecção do Palácio Nacional da Ajuda, é uma representação viva do modo como a Europa assimilava a vida e os costumes dos africanos. Oficina Portuguesa, José Pessoa/Direcção-Geral do Património Cultural, Arquivo de Documentação Fotográfica.

O debate é delicado, na medida em que o comércio de escravos é um tópico sensível mesmo século e meio depois da sua abolição progressiva por parte dos principais países europeus e norte-americanos.  Inequívoca barbárie, o tráfico contou com a complacência de mercadores e autoridades, mas forçosamente foi também potenciado pela colaboração de recrutadores em África. Seria O Africano um comerciante de escravos que fazia o triângulo entre a costa africana, a Europa e as Índias Espanholas? Talvez nunca o saibamos.

A cidade de Sines tem uma história que, à medida que a escavação de Paula Pereira e Sónia Ferro ganhou corpo, se materializou de outra maneira, como se só agora dispuséssemos dos óculos certos para ler determinadas evidências. “Há cartas de alforria e disposições testamentárias em favor de escravos ou ex-escravos aqui no concelho”, conta Ricardo Estevam Pereira, arquitecto do Departamento do Património Histórico e Artístico da Diocese de Beja. Alguns documentos comprovam igualmente que havia escravos com a missão de lidar com as contas dos amos, mesmo com escasso conhecimento alfabetizado. E há registo de sepultamento de uma africana no próprio adro da igreja no século XVII. “Materializam-se aqui capítulos menos comuns na grande narrativa dos escravos”, resume Paula Pereira a propósito da presença considerável de indivíduos provenientes de África no concelho. “E ainda há o santo…”, brinca, enquanto nos conduz à outra extremidade da baía da cidade, onde se ergue a Igreja de Nossa Senhora das Salas.

Há documentação que refere a existência de uma igreja em Sines no séc. XIII, compatível com a descoberta na escavação de moedas do reinado de Dom Sancho II. A partir do séc. XV, a fortificação do castelo e, depois, o foral manuelino legitimaram o crescimento da cidade a partir desta área representada na fotografia. Até este projecto arqueológico, não existiam indícios claros de envolvimento da cidade no comércio atlântico de escravos.

Na igreja cujo nome evoca um antigo local onde se efectuava a salga do peixe (da salga, deriva o topónimo salas), existe um curioso altar lateral onde figura São Benedito, também conhecido como.
 
O Mouro. Nascido na Sicília e descendente provavelmente de escravos da Etiópia, tem associado à sua figura um culto muito particular entre as comunidades africanas e é normalmente representado a oferecer pão aos fiéis. É curiosa – mas não inédita – a sua presença numa igreja portuguesa. “São meras conjecturas, mas estamos convencidos de que existiu uma numerosa população descendente de escravos que aqui se radicou em função de um movimentado porto de entradas e saídas e para a qual o culto religioso teve naturalmente de se adaptar”, diz Paula Pereira. Esta é a narrativa de fundo.

O culto de São Benedito, um santo negro, é antigo na cidade e sugere uma adaptação religiosa a uma população africana crescente.

O que se segue? As descobertas de 2013, cuidadosamente comunicadas em congresso, desafiaram a imaginação e a colocação de todo o tipo de hipóteses. Um conhecido escritor fez até saber que gostaria de investigar melhor a história para nela basear uma futura ficção. Paula Pereira e Sónia Ferro estão conscientes de que há muito ainda por investigar, mas o seu trabalho já activou o radar de organizações prestigiadas. O Comité Português da UNESCO ofereceu colaboração técnica à equipa e a Rede Eurostat, um consórcio de investigação sobre a história e legado do tráfico transatlântico de escravos, vai apresentar uma candidatura deste projecto, procurando financiamento para análises genéticas a vários dos indivíduos sepultados, com natural interesse pelo esqueleto número 11.

“Onde a documentação não chegar, terá de ser a arqueologia a preencher os buracos.”
“A análise de DNA pode aferir, com margem de certeza muito razoável, a proveniência deste homem – onde cresceu e em que zonas viveu de África ou da Ameríndia”, diz a bioantropóloga Sónia Ferro. Não está ainda excluída a hipótese de ele provir da América Central, onde, em certos contextos, também se limam os dentes incisivos, mas a hipótese mais forte é naturalmente um contexto subsaariano. “Se conhecermos de onde veio, a narrativa ganha um novo capítulo”, diz Paula Pereira.

A análise patológica está igualmente em curso, com apoio da Fundação Oswaldo Cruz do Rio de Janeiro. Não foram estimadas causas de morte para nenhum dos indivíduos encontrados, embora O Africano registe evidências de pleura. Vários outros têm marcas de doenças como o escorbuto, normais numa população muito ligada ao mar. 
O trabalho de laboratório tirará muitas destas questões a limpo, tal como a análise a pente fino dos documentos do Arquivo das Índias.

Em pleno Castelo de Sines, Ricardo Estevam Pereira resume o momento crítico do projecto: “Onde a documentação não chegar, terá de ser a arqueologia a preencher os buracos.”

Rotas do tráfico. Fonte "An Atlas of the Transatlantic Slave Trade", de David Eltis e Davide Richardson.

Três anos depois da escavação, centenas de pessoas voltaram a caminhar todos os dias despreocupadamente por cima do sítio arqueológico, já devolvido à normalidade. Deliciam-se com a baía, inspiram-se na estátua de Vasco da Gama, mas não sonham que uma página da história de Sines foi escrita precisamente sob os seus pés.

Veja ainda o vídeo sobre a reportagem aqui. Leia a entrevista de Paula Alves Pereira sobre este projecto aqui.

Texto Gonçalo Pereira   
Fotografias Alexandre Vaz, João Qaresma, Paula Alves Pereira   
Ilustração Anyforms
National Geographic

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Cláudio Carneiro


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